As Obras de Misericórdia Corporais e Espirituais são ações concretas pelas quais o cristão coloca em prática o amor a Deus e ao próximo. Elas nos recordam que a fé católica não deve permanecer apenas nas palavras, nas orações ou no conhecimento da doutrina: aquilo que acreditamos precisa transformar a maneira como tratamos as outras pessoas.
Jesus colocou a misericórdia no centro da vida cristã. Ele acolheu pecadores, alimentou os famintos, curou enfermos, consolou os que sofriam e ensinou seus discípulos a fazer o mesmo.
No Evangelho de São Mateus encontramos uma das passagens mais importantes para compreender essa missão:
“Tive fome e me destes de comer; tive sede e me destes de beber; era peregrino e me acolhestes; nu e me vestistes; enfermo e me visitastes; estava na prisão e viestes a mim.”
Mateus 25,35-36
Cristo vai ainda mais longe ao ensinar que o bem realizado ao próximo é realizado também a Ele:
“Todas as vezes que fizestes isso a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o fizestes.”
Mateus 25,40
Mas quais são as 14 Obras de Misericórdia? Qual é a diferença entre obras corporais e espirituais? E, principalmente, como podemos praticá-las atualmente?
Neste guia, vamos conhecer cada uma delas e descobrir que viver a misericórdia pode começar através de atitudes muito mais próximas do nosso cotidiano do que imaginamos.
O que são as Obras de Misericórdia?
As Obras de Misericórdia são ações de caridade pelas quais ajudamos nosso próximo em suas necessidades materiais e espirituais.
O Catecismo da Igreja Católica explica:
“As obras de misericórdia são as ações caridosas pelas quais vamos em ajuda do nosso próximo, nas suas necessidades corporais e espirituais.”
CIC 2447
Tradicionalmente, elas são divididas em dois grupos:
7 Obras de Misericórdia Corporais
7 Obras de Misericórdia Espirituais
As corporais estão relacionadas principalmente às necessidades físicas e materiais das pessoas.
As espirituais dizem respeito às necessidades da alma, da inteligência, da fé e das relações humanas.
Juntas, formam as conhecidas 14 Obras de Misericórdia.
Quais são as 7 Obras de Misericórdia Corporais?
Tradicionalmente, são:
1. Dar de comer a quem tem fome
2. Dar de beber a quem tem sede
3. Vestir os nus
4. Acolher os peregrinos
5. Assistir os enfermos
6. Visitar os presos
7. Enterrar os mortos
Grande parte dessa lista está diretamente relacionada ao ensinamento de Jesus em Mateus 25.
Vamos compreender cada uma.
1. Dar de comer a quem tem fome
A fome continua sendo uma realidade para inúmeras pessoas.
Jesus demonstrou preocupação concreta com aqueles que não tinham alimento. Nos Evangelhos encontramos, por exemplo, a multiplicação dos pães, quando uma multidão foi alimentada.
Dar de comer a quem tem fome pode parecer uma obra simples, mas possui uma profundidade enorme.
Hoje podemos praticá-la de várias maneiras:
doando alimentos;
ajudando famílias necessitadas;
colaborando com campanhas paroquiais;
participando de cozinhas solidárias;
oferecendo uma refeição a alguém que precisa;
evitando desperdício enquanto outras pessoas passam necessidade.
Não precisamos resolver sozinhos o problema da fome no mundo para começar.
Talvez exista uma família precisando de ajuda perto de nós.
2. Dar de beber a quem tem sede
A água é uma necessidade básica da vida humana.
Dar de beber a quem tem sede parece uma atitude pequena, mas o próprio Jesus valorizou esse gesto:
“Todo aquele que der ainda que seja somente um copo de água fresca a um destes pequeninos […] não perderá sua recompensa.”
Mateus 10,42
Essa obra também pode assumir dimensões maiores.
Podemos apoiar iniciativas que oferecem água potável a comunidades necessitadas, ajudar pessoas em situação de rua ou simplesmente oferecer água a alguém que chega cansado à nossa casa ou local de trabalho.
A misericórdia frequentemente começa nas pequenas necessidades que aprendemos a perceber.
3. Vestir os nus
Na época de Jesus, possuir roupas adequadas podia representar uma necessidade muito séria.
Essa realidade continua existindo.
Quantas roupas permanecem durante anos em nossos armários sem serem utilizadas enquanto outras pessoas não possuem vestimentas adequadas?
Podemos praticar essa obra doando:
roupas em bom estado;
calçados;
agasalhos;
cobertores;
roupas infantis.
Mas existe uma regra simples:
caridade não significa doar aquilo que já deveria ir para o lixo.
Se uma roupa está completamente inutilizável, não deveríamos entregá-la a alguém apenas para nos livrarmos dela.
A dignidade da pessoa que recebe precisa ser respeitada.
4. Acolher os peregrinos
Tradicionalmente encontramos também a expressão “dar pousada aos peregrinos”.
Em nosso tempo, essa obra pode ser compreendida de maneira mais ampla como acolher aqueles que estão longe de casa ou enfrentam situações de vulnerabilidade.
Pode envolver refugiados, migrantes, viajantes, pessoas sem moradia ou alguém que simplesmente se encontra sozinho em um lugar desconhecido.
Nem sempre será possível receber alguém dentro de nossa casa.
Mas podemos ajudar de outras maneiras:
orientando;
oferecendo alimentação;
contribuindo com instituições sérias;
ajudando alguém a encontrar abrigo;
acolhendo pessoas novas em nossa comunidade.
A pergunta fundamental é:
como tratamos aquele que chega e não conhece ninguém?
5. Assistir os enfermos
A doença frequentemente traz mais do que sofrimento físico.
Ela pode trazer solidão, medo e insegurança.
Por isso, visitar e cuidar dos enfermos é uma obra profundamente cristã.
Jesus aproximava-se constantemente dos doentes.
Hoje podemos fazer o mesmo.
Talvez seja através de uma visita.
Talvez seja levando uma pessoa a uma consulta.
Preparando uma refeição.
Comprando um medicamento.
Ligando para alguém que está passando por um tratamento difícil.
Ou simplesmente permanecendo ao lado de uma pessoa que precisa ser ouvida.
Também podemos rezar pelos enfermos e, quando apropriado, ajudá-los a receber acompanhamento espiritual e os Sacramentos.
Às vezes, uma pessoa enferma não precisa de um longo discurso.
Precisa de presença.
6. Visitar os presos
Jesus incluiu os presos entre aqueles que devem receber nossa atenção:
“Estava na prisão e viestes a mim.”
Mateus 25,36
Essa obra não significa negar a responsabilidade de quem cometeu um crime.
Significa reconhecer que nenhuma pessoa perde sua dignidade humana.
A pastoral carcerária é uma das maneiras pelas quais a Igreja procura viver essa missão.
Nem todos poderão visitar diretamente uma prisão, pois existem regras e condições específicas.
Mas podemos:
rezar pelos presos;
apoiar pastorais e projetos de reinserção;
ajudar suas famílias;
colaborar com iniciativas sérias de assistência.
A misericórdia cristã não significa afirmar que o mal não possui consequências.
Significa acreditar que conversão e recomeço continuam possíveis.
7. Enterrar os mortos
Cuidar dos falecidos e acompanhar aqueles que enfrentam o luto é uma antiga expressão de respeito e misericórdia.
O Catecismo recorda que enterrar os mortos também é uma Obra de Misericórdia Corporal (CIC 2447).
Na prática, podemos:
participar de velórios e funerais;
ajudar famílias enlutadas;
oferecer presença e apoio;
rezar pelos falecidos;
participar da Santa Missa em intenção deles.
Também devemos evitar frases superficiais diante de alguém que acabou de perder uma pessoa querida.
Às vezes, a maior misericórdia é simplesmente estar presente e dizer:
“Estou aqui com você.”
Quais são as 7 Obras de Misericórdia Espirituais?
As necessidades humanas não são apenas materiais.
Também existem sofrimento, ignorância, pecado, dúvida, tristeza e conflitos.
Por isso, a tradição cristã apresenta sete Obras de Misericórdia Espirituais:
1. Dar bom conselho
2. Ensinar os ignorantes
3. Corrigir os que erram
4. Consolar os aflitos
5. Perdoar as injúrias
6. Sofrer com paciência as fraquezas do próximo
7. Rezar pelos vivos e pelos mortos
Vamos entender cada uma.
1. Dar bom conselho
Todos enfrentamos momentos de dúvida.
Nessas horas, um conselho prudente pode evitar uma decisão desastrosa.
Mas dar bom conselho não significa simplesmente dizer:
“Se eu fosse você…”
O verdadeiro conselho precisa buscar o bem da pessoa, e não aquilo que é mais conveniente para nós.
Para aconselhar bem, precisamos aprender a ouvir.
Também devemos reconhecer nossos limites.
Existem situações que exigem ajuda de um sacerdote, psicólogo, médico, advogado ou outro profissional competente.
Humildade também significa saber dizer:
“Não sei responder isso, mas posso ajudar você a procurar alguém preparado.”
2. Ensinar os ignorantes
Aqui, “ignorante” significa simplesmente aquele que não conhece determinada verdade, e não deve ser usado como insulto.
Ensinar é uma grande forma de caridade.
Pais fazem isso quando transmitem a fé aos filhos.
Catequistas fazem quando ajudam outras pessoas a conhecer Jesus e a doutrina cristã.
Também fazemos isso quando explicamos algo com paciência a alguém que deseja aprender.
Mas existe uma condição:
não podemos ensinar aquilo que nós mesmos não procuramos conhecer.
Por isso, estudar a Bíblia, o Catecismo e a doutrina da Igreja também nos prepara para servir outras pessoas.
3. Corrigir os que erram
Talvez esta seja uma das obras mais delicadas.
Jesus ensina sobre a correção fraterna em Mateus 18,15.
Mas corrigir alguém não significa humilhar.
Não significa expor publicamente seus erros.
Muito menos sentir prazer em mostrar que estamos certos.
São Paulo aconselha:
“Se alguém for surpreendido numa falta, vós, que sois espirituais, corrigi-o com espírito de mansidão.”
Gálatas 6,1
Antes de corrigir alguém, podemos perguntar:
Estou fazendo isso por amor ou para provar que sou superior?
A verdade sem caridade pode transformar uma correção necessária em agressão.
4. Consolar os aflitos
Todos encontramos pessoas sofrendo.
Luto.
Desemprego.
Solidão.
Problemas familiares.
Doença.
Decepções.
Nesses momentos, existe uma tentação de encontrar rapidamente alguma frase para “resolver” o sofrimento.
Mas nem sempre precisamos oferecer uma explicação.
Às vezes, consolar significa escutar.
Sentar ao lado.
Permitir que a pessoa chore.
Oferecer ajuda concreta.
Rezar com ela.
Jesus chorou diante do túmulo de Lázaro (cf. João 11,35).
Isso nos mostra que a fé não exige indiferença diante da dor.
5. Perdoar as injúrias
Essa talvez seja uma das obras mais difíceis.
Jesus colocou o perdão no coração da oração cristã:
“Perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido.”
Mateus 6,12
Perdoar não significa dizer que aquilo que aconteceu foi correto.
Também não significa esquecer instantaneamente, abandonar limites necessários ou permanecer exposto a situações perigosas.
Perdão significa renunciar à vingança e não permitir que o ódio governe nosso coração.
Algumas feridas exigem tempo.
Nesses casos, podemos começar dizendo:
“Senhor, eu ainda não consigo, mas quero aprender a perdoar.”
Isso já pode ser o início de um caminho.
6. Sofrer com paciência as fraquezas do próximo
Todos convivemos com pessoas imperfeitas.
E elas convivem conosco.
Essa obra nos convida a suportar com paciência determinados defeitos e limitações dos outros.
Isso pode acontecer dentro da própria família.
No casamento.
Na comunidade.
No trabalho.
Na paróquia.
Mas atenção: paciência cristã não significa tolerar abuso, violência ou situações graves sem procurar ajuda.
Existem comportamentos que precisam ser enfrentados.
A obra refere-se especialmente às limitações e dificuldades normais da convivência humana.
Antes de reclamar dos defeitos dos outros, talvez seja útil lembrar:
eles também precisam ter paciência com os nossos.
7. Rezar pelos vivos e pelos mortos
A oração de intercessão é uma forma de caridade.
Podemos apresentar diante de Deus pessoas que talvez nunca saibam que rezamos por elas.
Familiares.
Amigos.
Doentes.
Sacerdotes.
Governantes.
Pessoas que nos fizeram mal.
Aqueles que estão longe da fé.
Também rezamos pelos falecidos.
A Igreja ensina sobre a oração pelos mortos e recorda essa prática desde os primeiros tempos do cristianismo (cf. CIC 1032).
Uma forma particularmente importante é oferecer a Santa Missa em intenção dos falecidos.
As Obras de Misericórdia são necessárias para a vida cristã?
Sim.
A caridade não é um acessório da fé.
São Tiago apresenta uma pergunta muito forte:
“Se um irmão ou uma irmã estiverem nus e precisarem do alimento cotidiano, e algum de vós lhes disser: ‘Ide em paz, aquecei-vos e fartai-vos’, mas não lhes der o necessário para o corpo, de que lhes aproveitará?”
Tiago 2,15-16
Logo depois encontramos:
“Assim também a fé: se não tiver obras, é morta em si mesma.”
Tiago 2,17
Isso não significa que “compramos” a salvação através de boas ações.
Significa que uma fé verdadeira deve produzir frutos de amor.
Como começar a praticar as Obras de Misericórdia?
Talvez olhar para uma lista com 14 obras faça tudo parecer complicado.
Não precisa ser.
Escolha uma obra corporal e uma espiritual para praticar nesta semana.
Por exemplo:
Doe alimentos a uma família necessitada.
E ligue para alguém que esteja sofrendo.
Na semana seguinte, escolha outras.
Você também pode fazer um pequeno exame no final do dia:
Hoje percebi alguém precisando de ajuda?
Ignorei alguma oportunidade de fazer o bem?
Confortei ou aumentei o sofrimento de alguém?
Perdoei ou alimentei ressentimento?
Rezei por outras pessoas?
Pouco a pouco, a misericórdia deixa de ser apenas uma lista e começa a tornar-se uma maneira de viver.
Misericórdia não é apenas dar coisas
Existe ainda um perigo que precisamos evitar.
Podemos praticar uma obra exteriormente e, ao mesmo tempo, tratar a pessoa ajudada como inferior.
Isso não é verdadeira caridade.
Quem recebe nossa ajuda não está nos oferecendo uma oportunidade para demonstrarmos que somos melhores.
É nosso irmão.
É nossa irmã.
Cristo diz:
“Foi a mim mesmo que o fizestes.”
Mateus 25,40
Essa frase muda completamente nossa maneira de olhar para a caridade.
Quando encontramos alguém necessitado, não deveríamos perguntar apenas:
“O que vou dar?”
Também podemos perguntar:
“Como vou tratar essa pessoa?”
Dignidade, atenção, respeito e amor também fazem parte da misericórdia.
Perguntas frequentes sobre as Obras de Misericórdia
Quantas Obras de Misericórdia existem?
Tradicionalmente são 14: sete corporais e sete espirituais.
Quais são as Obras de Misericórdia Corporais?
Dar de comer a quem tem fome, dar de beber a quem tem sede, vestir os nus, acolher os peregrinos, assistir os enfermos, visitar os presos e enterrar os mortos.
Quais são as Obras de Misericórdia Espirituais?
Dar bom conselho, ensinar os ignorantes, corrigir os que erram, consolar os aflitos, perdoar as injúrias, sofrer com paciência as fraquezas do próximo e rezar pelos vivos e pelos mortos.
Onde Jesus fala das Obras de Misericórdia?
Uma das principais referências é Mateus 25,31-46, especialmente no ensinamento sobre alimentar os famintos, acolher os estrangeiros, vestir os necessitados, visitar enfermos e presos.
Onde estão as Obras de Misericórdia no Catecismo?
O Catecismo trata delas especialmente no parágrafo 2447.
Preciso ter dinheiro para praticar misericórdia?
Não. Algumas obras envolvem bens materiais, mas muitas exigem principalmente tempo, presença, escuta, conhecimento, paciência, perdão e oração.
“Foi a mim que o fizestes”
As Obras de Misericórdia Corporais e Espirituais apresentam uma das dimensões mais bonitas e exigentes do cristianismo.
Elas nos obrigam a retirar a fé do campo das ideias e colocá-la dentro da vida cotidiana.
Jesus pode estar naquele que tem fome.
Na pessoa enferma.
Na família enlutada.
Naquele que precisa aprender.
Em quem necessita de perdão.
Na pessoa solitária.
No preso.
Naquele que simplesmente precisa ser ouvido.
Talvez nunca consigamos realizar grandes obras conhecidas por milhares de pessoas.
Mas todos os dias surgem pequenas oportunidades de amar.
E no Evangelho, Cristo revela algo extraordinário sobre essas pequenas ações:
“Todas as vezes que fizestes isso a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o fizestes.”
Mateus 25,40
A pergunta, portanto, não é somente:
“Eu conheço as 14 Obras de Misericórdia?”
A pergunta verdadeiramente cristã é:
“Qual delas posso começar a viver hoje?”

